.Ano 41 - Canavieiras, Bahia, 1ª quinzena de Outubro/2008 - Nº 765
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Coisas que eu posso fazer pela minha cidade
Alex Saporetti
  
 

- Falar bem da minha terra e defendê-la e amá-la sempre, entendendo seu potencial e vocação, e trabalhando para sua excelência.
- Admirar e preservar a cultura da minha cidade e minha gente, mantendo e resgatando tradições importantes que muitas vezes se perdem no esquecimento.
- Tomar conhecimento da história e dos acontecimentos do passado da minha cidade, valorizando e disseminando informações preciosas para que gerações futuras não se esqueçam de sua origem.

- Me educar e me capacitar e me informar a respeito de minha cidadania, exercendo consequentemente meus direitos e deveres dentro da comunidade.
- Me orgulhar de minha cidade, conhecendo e divulgando sua cultura, sua gente, sua culinária e tradições, e saber expressar esse orgulho para os visitantes.
- Promover o bem, honestidade e responsabilidade, e a atitude positiva perante a minha vida, meu trabalho e estudos, e minha comunidade.
- Valorizar e preservar a exuberância da natureza que me rodeia, entendendo e apreciando o tesouro que são nossas praias e manguezais.
- Evitar jogar lixo na rua e se possível recolher sujeira deixada por pessoas irresponsáveis, na cidade, nos mangues e nas praias.
- Fazer a minha parte no tocante ao embelezamento de minha cidade, como, por exemplo, plantar uma árvore, flores ou folhagens, ou adotar e cuidar de um jardim público.

- Me envolver em trabalhos sociais, procurando fazer a minha parte em minimizar os problemas de ordem social que causam tantos outros problemas na nossa comunidade.
- Ter mente aberta para as mudanças e inovações que o futuro traz, ao mesmo tempo preservando a história e memória de meu povo e minha cidade.
- Olhar para o futuro de minha terra com otimismo, vislumbrando horizontes e trabalhando no sentido de alcançar objetivos, posto que todo sucesso parte de um sonho ou ideal.
- Entender meu valor e meu papel na sociedade, e minha capacidade de participar e transformar a realidade, não sozinho, mas associado a outros que compartilhem os mesmos ideais.
- Procurar me manter informado e participar de projetos que enriqueçam de alguma forma o que representa a minha cidade e minha comunidade.
- Desenvolver meus dons e habilidades especiais em prol da melhoria da minha comunidade, dando assim a minha contribuição para o bem comum.

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Alex Saporetti é arquiteto e designer, sócio-proprietário da Aratama Pousada e primeiro secretário da Associação Viva Canavieiras. É mineiro, morou vinte anos em San Francisco, Estados Unidos, e mora em Canavieiras há quase cinco anos
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Um olhar geográfico sobre Canavieiras
Paulo Aguiar
  
 

Inscrito em um contexto mais amplo, o processo de ocupação geográfica que viria a se tornar o território do Município de Canavieiras, que conforme indício teria principiado por volta de 1700, esteve intrinsecamente articulado ao processo de ocupação geográfica do território nacional. A colonização do território nacional apresentou, inicialmente, uma característica marcante que foi o privilégio à ocupação de áreas situadas próximas ao litoral, isto se devendo fundamentalmente à maior proximidade com a metrópole portuguesa, o receio à presença de uma imensa floresta inexplorada e aos nativos da terra, e a maior acessibilidade às vias de circulação. Assim como no restante da Região Sul do Estado da Bahia, em Canavieiras a ocupação e uso do solo estiveram, desde o início do processo de ocupação territorial, intrinsecamente ligado à exploração dos recursos naturais. Inicialmente com a extração, em amplas áreas, de madeira nativa com fins comerciais - áreas essas que viriam dar lugar a pastarias, a outras atividades, como engenhos de açúcar e à produção de alimentos, ou mesmo ao surgimento de núcleos populacionais.

A inserção da lavoura cacaueira, no Séc. XVIII, a partir dos férteis vales do Rio Pardo, que posteriormente se expandiu por toda a região e mesmo transpôs seus limites, trouxe um novo sentido para a ocupação e uso do solo nesta região, que passou, tempos depois, a ser norteada diretamente em função desta atividade econômica. No Município de Canavieiras, berço da implantação do cacau na região, essa lavoura assumiu por um longo espaço de tempo um papel preponderante como monocultura concentradora da maior parcela da mão-de-obra disponível, propiciado, sobretudo, em função da acessibilidade de terras férteis em trechos do Rio Pardo associado a uma boa distribuição de chuvas ao longo do ano. Contudo, intermediário a isso, há de se citar também, mesmo que de forma momentânea, a importância da região do Salobro, na segunda metade do Séc. XIX, com suas riquezas minerais, causando um significativo fluxo migratório e crescimento econômico para o município.

No Séc. XX, com os seguidos desmembramentos de território que sofreu dando origem a outros municípios, como Camacan, Mascote, Pau Brasil, Santa Luzia e, posteriormente, com o declínio da monocultura do cacau em função da inserção na Região Cacaueira da praga causada pelo fungo Crinipellis perniciosa (a vassoura-de-bruxa), a situação do Município de Canavieiras se tornou problemática. Assim, o Município passa a perder significativa importância no contexto regional, sendo que sérios problemas sociais surgiram como conseqüência disso, pois a lavoura de cacau que concentrava a maior parcela da mão-de-obra disponível passou a não mais garantir essa situação, surgindo um grande número de desempregados no meio rural que passaram a ver como solução o migrar com seus familiares para o meio urbano, causando um crescimento desordenado da cidade e aumentando os seus problemas sociais (seguindo uma tendência nacional de, a partir da segunda metade do Séc. XX, ter a maior parcela de sua população concentrada nos espaços urbanos), sendo que muitos desses desempregados encontraram nos recursos naturais como os manguezais, a pesca artesanal e outras formas de pequenos extrativismos, a sua fonte de sobrevivência, pois a mesma não possuía a infra-estrutura necessária para agregar esse contingente.

Nas últimas décadas a sede do Município passou por substanciais transformações, não apenas pelo fato de que a sua população e o seu espaço urbano cresceram, mas também porque novas funções foram inseridas no seu bojo, tornando-a mais complexa. Tentando revitalizar a economia da região, o Governo do Estado "implantou um Pólo Turístico abrangendo os Municípios de Santa Luzia, Itacaré, Ilhéus, Una (Ilha de Comandatuba) e Canavieiras, que recebeu a denominação de Costa do Cacau", adotando políticas de atração de investimentos nacionais e internacionais, tendo no turismo e na melhoria da infra-estrutura os seus focos principais, sobretudo para as cidades litorâneas. Em Canavieiras, essa política do Governo do Estado, em parceria com o Poder Público Municipal, possibilitou o investimento por parte de empresários no setor da carcinicultura (criação de camarões em cativeiro); ainda dentro dessa política previa-se a implantação no que consiste ao setor turístico, de hotéis de grande porte na extensão da sua faixa litorânea.

A criação da Reserva Extrativista Marinha de Canavieiras em área litorânea do município tornou-se um fator de dualidade para o próprio município e para o desenvolvimento regional, pois por um lado ela inviabiliza a inserção ou permanência de atividades econômicas que não sejam típicas do extrativismo, em sua área de abrangência, em função da legislação que gere esse tipo de Unidade de Conservação; por outro, ela se constitui teoricamente num mecanismo propiciador da preservação do meio ambiente e a garantia das condições de sobrevivência de trabalhadores artesanais. Por envolver interesses de diferentes segmentos sociais, a criação da Resex de Canavieiras acaba por se tornar um fator de posicionamentos ideológicos antagônicos com relação à mesma dentro do espaço geográfico municipal.

Dentre os segmentos da sociedade local que têm se apresentado como sendo contrários à criação dessa Reserva Extrativista, os mais importantes são: os agentes políticos, que desde que souberam da criação desta têm se mostrado contrários à mesma, inclusive não medindo esforços para que o processo que deu origem à sua criação seja revisto, sob alegação de ter havido fraude na origem da documentação que lhe deu início: o segmento dos comerciários que se sentem prejudicados pela inibição de novos fluxos de capitais virem a circular no espaço geográfico local. Por outro lado, encontram-se os segmentos que se colocam favoráveis à criação da Unidade de Conservação, dentre os quais se destacam os extrativistas e os ambientalistas, cujo discurso se fundamenta na garantia ao meio de sobrevivência de marisqueiras e pescadores artesanais, e à preservação do meio ambiente, onde o ecossistema de manguezais acaba por assumir um papel importante.

A possível alteração da dinâmica sócio-espacial do Município de Canavieiras em função da criação da Reserva Extrativista acaba por ser fator que requer um repensar, de uma forma mais ampla, o próprio território municipal associado a políticas mais efetivas, envolvendo as três instâncias de Governo (Municipal, Estadual e Federal), no sentido do desenvolvimento municipal. Urge como principal desafio hoje ao Município de Canavieiras o trilhar o caminho do desenvolvimento econômico e social, eliminando do seu espaço geográfico aquele elemento que lhe é mais pernicioso, ou seja, a pobreza, e para isso faz-se necessário superar paulatinamente os seus problemas estruturais, direcionando as suas forças produtivas nesse sentido. A busca pela diversificação econômica, a melhoria na infra-estrutura e a adoção de políticas afirmativas são fatores preponderantes para isso. Sabe-se do papel primordial da educação no sentido da inclusão social e da diminuição dos desníveis sócio-econômicos, sendo esta também a base fundamental para se promover uma nova realidade em Canavieiras.

Assim, somente quando a diversidade de interesses e a multiplicidade de idéias e ações, dentro de uma sociedade multifacetada forem direcionadas a um objetivo comum é que poderemos ver o esboço da construção de uma Canavieiras mais humana, mais justa e verdadeiramente cidadã.

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Paulo Aguiar é geógrafo graduado pela Uesc, professor do curso pré-vestibular "Universidade Para Todos" no Colégio Isbela Freire, em Canavieiras, e no Colégio Heitor Dias, em Ilhéus. E-mail: prof.pauloaguiar@bol.com.br
 
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