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em um contexto mais amplo, o processo de ocupação
geográfica que viria a se tornar o território
do Município de Canavieiras, que conforme indício
teria principiado por volta de 1700, esteve intrinsecamente
articulado ao processo de ocupação geográfica
do território nacional. A colonização
do território nacional apresentou, inicialmente,
uma característica marcante que foi o privilégio
à ocupação de áreas situadas
próximas ao litoral, isto se devendo fundamentalmente
à maior proximidade com a metrópole portuguesa,
o receio à presença de uma imensa floresta
inexplorada e aos nativos da terra, e a maior acessibilidade
às vias de circulação. Assim como
no restante da Região Sul do Estado da Bahia, em
Canavieiras a ocupação e uso do solo estiveram,
desde o início do processo de ocupação
territorial, intrinsecamente ligado à exploração
dos recursos naturais. Inicialmente com a extração,
em amplas áreas, de madeira nativa com fins comerciais
- áreas essas que viriam dar lugar a pastarias,
a outras atividades, como engenhos de açúcar
e à produção de alimentos, ou mesmo
ao surgimento de núcleos populacionais.
A
inserção da lavoura cacaueira, no Séc.
XVIII, a partir dos férteis vales do Rio Pardo,
que posteriormente se expandiu por toda a região
e mesmo transpôs seus limites, trouxe um novo sentido
para a ocupação e uso do solo nesta região,
que passou, tempos depois, a ser norteada diretamente
em função desta atividade econômica.
No Município de Canavieiras, berço da implantação
do cacau na região, essa lavoura assumiu por um
longo espaço de tempo um papel preponderante como
monocultura concentradora da maior parcela da mão-de-obra
disponível, propiciado, sobretudo, em função
da acessibilidade de terras férteis em trechos
do Rio Pardo associado a uma boa distribuição
de chuvas ao longo do ano. Contudo, intermediário
a isso, há de se citar também, mesmo que
de forma momentânea, a importância da região
do Salobro, na segunda metade do Séc. XIX, com
suas riquezas minerais, causando um significativo fluxo
migratório e crescimento econômico para o
município.
No
Séc. XX, com os seguidos desmembramentos de território
que sofreu dando origem a outros municípios, como
Camacan, Mascote, Pau Brasil, Santa Luzia e, posteriormente,
com o declínio da monocultura do cacau em função
da inserção na Região Cacaueira da
praga causada pelo fungo Crinipellis perniciosa (a vassoura-de-bruxa),
a situação do Município de Canavieiras
se tornou problemática. Assim, o Município
passa a perder significativa importância no contexto
regional, sendo que sérios problemas sociais surgiram
como conseqüência disso, pois a lavoura de
cacau que concentrava a maior parcela da mão-de-obra
disponível passou a não mais garantir essa
situação, surgindo um grande número
de desempregados no meio rural que passaram a ver como
solução o migrar com seus familiares para
o meio urbano, causando um crescimento desordenado da
cidade e aumentando os seus problemas sociais (seguindo
uma tendência nacional de, a partir da segunda metade
do Séc. XX, ter a maior parcela de sua população
concentrada nos espaços urbanos), sendo que muitos
desses desempregados encontraram nos recursos naturais
como os manguezais, a pesca artesanal e outras formas
de pequenos extrativismos, a sua fonte de sobrevivência,
pois a mesma não possuía a infra-estrutura
necessária para agregar esse contingente.
Nas
últimas décadas a sede do Município
passou por substanciais transformações,
não apenas pelo fato de que a sua população
e o seu espaço urbano cresceram, mas também
porque novas funções foram inseridas no
seu bojo, tornando-a mais complexa. Tentando revitalizar
a economia da região, o Governo do Estado "implantou
um Pólo Turístico abrangendo os Municípios
de Santa Luzia, Itacaré, Ilhéus, Una (Ilha
de Comandatuba) e Canavieiras, que recebeu a denominação
de Costa do Cacau", adotando políticas de
atração de investimentos nacionais e internacionais,
tendo no turismo e na melhoria da infra-estrutura os seus
focos principais, sobretudo para as cidades litorâneas.
Em Canavieiras, essa política do Governo do Estado,
em parceria com o Poder Público Municipal, possibilitou
o investimento por parte de empresários no setor
da carcinicultura (criação de camarões
em cativeiro); ainda dentro dessa política previa-se
a implantação no que consiste ao setor turístico,
de hotéis de grande porte na extensão da
sua faixa litorânea.
A
criação da Reserva Extrativista Marinha
de Canavieiras em área litorânea do município
tornou-se um fator de dualidade para o próprio
município e para o desenvolvimento regional, pois
por um lado ela inviabiliza a inserção ou
permanência de atividades econômicas que não
sejam típicas do extrativismo, em sua área
de abrangência, em função da legislação
que gere esse tipo de Unidade de Conservação;
por outro, ela se constitui teoricamente num mecanismo
propiciador da preservação do meio ambiente
e a garantia das condições de sobrevivência
de trabalhadores artesanais. Por envolver interesses de
diferentes segmentos sociais, a criação
da Resex de Canavieiras acaba por se tornar um fator de
posicionamentos ideológicos antagônicos com
relação à mesma dentro do espaço
geográfico municipal.
Dentre
os segmentos da sociedade local que têm se apresentado
como sendo contrários à criação
dessa Reserva Extrativista, os mais importantes são:
os agentes políticos, que desde que souberam da
criação desta têm se mostrado contrários
à mesma, inclusive não medindo esforços
para que o processo que deu origem à sua criação
seja revisto, sob alegação de ter havido
fraude na origem da documentação que lhe
deu início: o segmento dos comerciários
que se sentem prejudicados pela inibição
de novos fluxos de capitais virem a circular no espaço
geográfico local. Por outro lado, encontram-se
os segmentos que se colocam favoráveis à
criação da Unidade de Conservação,
dentre os quais se destacam os extrativistas e os ambientalistas,
cujo discurso se fundamenta na garantia ao meio de sobrevivência
de marisqueiras e pescadores artesanais, e à preservação
do meio ambiente, onde o ecossistema de manguezais acaba
por assumir um papel importante.
A
possível alteração da dinâmica
sócio-espacial do Município de Canavieiras
em função da criação da Reserva
Extrativista acaba por ser fator que requer um repensar,
de uma forma mais ampla, o próprio território
municipal associado a políticas mais efetivas,
envolvendo as três instâncias de Governo (Municipal,
Estadual e Federal), no sentido do desenvolvimento municipal.
Urge como principal desafio hoje ao Município de
Canavieiras o trilhar o caminho do desenvolvimento econômico
e social, eliminando do seu espaço geográfico
aquele elemento que lhe é mais pernicioso, ou seja,
a pobreza, e para isso faz-se necessário superar
paulatinamente os seus problemas estruturais, direcionando
as suas forças produtivas nesse sentido. A busca
pela diversificação econômica, a melhoria
na infra-estrutura e a adoção de políticas
afirmativas são fatores preponderantes para isso.
Sabe-se do papel primordial da educação
no sentido da inclusão social e da diminuição
dos desníveis sócio-econômicos, sendo
esta também a base fundamental para se promover
uma nova realidade em Canavieiras.
Assim,
somente quando a diversidade de interesses e a multiplicidade
de idéias e ações, dentro de uma
sociedade multifacetada forem direcionadas a um objetivo
comum é que poderemos ver o esboço da construção
de uma Canavieiras mais humana, mais justa e verdadeiramente
cidadã.
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