.Ano 41 - Canavieiras, Bahia, 1ª e 2ª quinzenas de Fevereiro/2009 - Nº 772
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A Academia de Letras e Artes de Canavieiras
Prof. Paulo Aguiar
  
 

Mais que simplesmente ser representada por um grupo seleto de 40 pessoas que se reúnem vez ou outra em um auditório ou salão onde apresentações de cunho cultural são realizadas, a Academia de Letras e Artes de Canavieiras (Alac) se constitui em um elemento de fundamental importância para a cultura e a sociedade canavieirense.

Idealizada por Benjamin Batista Filho, da Academia de Letras e Artes de Salvador (Alas), e levada a efeito a 2 de setembro de 2003, por um grupo de "sonhadores canavieirenses", a Alac tem por meta principal uma busca, a busca por ser um paradigma, um divisor de águas, uma referência para a cultura de Canavieiras.

Constituída por pessoas as mais diferenciadas, com múltiplas formações (intelectual, moral e social), à Alac urge como desafio maior o fazer o grande público, a massa do povo, participar da realidade que lhe é peculiar. E é esse desafio que está posto sobre os ombros dos seus membros: contribuir, de alguma forma, para o bem comum dos nossos cidadãos. Pois o futuro moral, intelectual e social das crianças, dos adolescentes e dos jovens de Canavieiras, de alguma forma também perpassa por ela.

De igual modo, à comunidade canavieirense compete o dar maior valor à academia, prestigiando suas reuniões sociais (sempre abertas ao público) e dando sugestões, pois a mesma não é algo fechado a uma elite - pelo menos penso assim, e creio que antes de tudo ela é um patrimônio do povo de Canavieiras, efetivada e levada avante por cidadãs e cidadãos capazes, de forma prazerosa e voluntária.

Embora ainda em processo de estruturação, penso que a Alac ainda tem muito a crescer e a valorizar a nossa terra, abrindo possibilidades, sobretudo aos menos favorecidos. "A cultura é a força do lugar". Sob a perspectiva da Geografia, Canavieiras também é um lugar. Sendo assim, a cultura é a força de Canavieiras. E em Canavieiras, de alguma forma, a Alac também é uma cidadão cultura.

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Paulo Aguiar é graduado em Geografia (licenciatura plena) e mestrando em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional pela Uesc, membro da Academia de Letras e Artes de Canavieiras e da Igreja Adventista do 7º Dia. E-mail: prof.pauloaguiar@bol.com.br
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Panegírico para Deraldo Campos
Neyraldo Ferraz de Souza
  
 

Das margens do Rio Pardo, nascido de Tiago Campos e Maria Chaves, a Iaiá Rezadeira, surgiu o Menestrel que desde a infância rural já percebia nos pássaros a beleza do cantar. Trouxe na sua alma a veia artística que fez vibrante as poesias de consagrados compositores de clássicos da música popular brasileira. Ainda hoje, em momentos especiais, rememora desde os Carnavais de Arlequim às mais românticas serestas, trazendo alegrias, lembranças e saudades de um tempo que ressurge no timbre grave da sua voz, que encanta os apreciadores dos bons versos e melodias que não se esvaíram no tempo.

Na cidade de Salvador, teve vivência também como radialista em tempos que boêmios seguiam as artérias urbanas para dar sonoridade às estrelas e ao luar. Autodidata por excelência, curioso por inconformismo, sutilmente crítico, sempre disposto a aprender e a ensinar, detentor de diploma ofertado pela vida, que em seus pequenos detalhes o tornou douto por empirismo, permitindo vadiar por variados assuntos discutidos, desde o boteco da Rua da Jaqueira ao Paço Municipal, onde esteve por 30 anos como servidor público, mantendo-se fiel aos seus princípios de honestidade em meio a tantas dificuldades que o próprio satirizava com o seu sempre presente senso de humor.

Dizem que foi devasso, seria escandaloso se não fosse apenas apanágio dos artistas que vivenciam os seus desejos com uma naturalidade que os distanciam da hipocrisia e o aproximam da forma de existir que transforma libertinagem erudita em liberdade, por que não dizer licença poética da vida real.
Recebe a benção de poder transpor seu octagenário após as bodas de prata comemorados com D. Neide, parceira de vida e testemunha de sua sonora trajetória.

Canavieiras sangrada pelos rios, banhada pelo oceano, com sua natureza exuberante, permanecerá com sua atmosfera livre para trafegar as ondas sonoras que emanam desse cantor. Liguem as caixas acústicas, deixem o arauto anunciar, deixem o povo aplaudir, deixem o cantor cantar, em sua voz renasce a nossa história, pois ele nos traz euforia, suavidade e nos aquece em seus Retalhos de Saudade.

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O cantor Deraldo Campos, de 80 anos, é o homenageado deste ano do Carnaval Cultural, que a Prefeitura Municipal promove no Sítio Histórico Paulo Souto. No ano passado, foi homenageada a memória do saxofonista Faustino Pereira Lima, o Mestre China. Para 2010 está prevista se homenagear a memória do violonista, cavaquinista e compositor Raimundo Barbosa, o Coleguinha.
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O xeque-mate da História!
Fernando Reis
  
 

Quando o professor Durval Filho vem a público em artigo assinado por extenso, edição nº 770 de TABU, tentando minimizar exercícios de imaginação, ficção e folclore de colaboradores deste jornal, como Eunice Castro e Paulo Aguiar, entendemos como um indulgente gesto de cavalheirismo que, entretanto, não invalida comentários anteriormente expendidos na página 8 da edição nº 769 do mesmo jornal. Cavalheirismo à parte, convenhamos que ressalvas a posteriori, conceituadas como verdades relativas, conduzem a uma plasticidade que poderá até abarcar, na amplitude desta aceitação, versões psicografadas...

Em nenhum momento houve de minha parte a intenção de apenas tecer críticas a quem quer que seja. Apontar erros e omissões é o que faço, sinalizando com a meridiana clareza do estilo "fernandiano" os caminhos que mais de aproximam da verdade histórica. Esta que, uma vez comprovada, passa a reclamar as devidas correções e, em alguns casos, até a republicação corrigida, a fim de que o pesquisador vindouro não venha a se perder "nos meandros da História". É quase certo que a barba não faz o filósofo, entretanto, quem não quer ser lobo não veste a pele, o que mais baianamente se diria: quem não agüenta com feitiço não carrega patuá, ou ainda como aconselha a sabedoria popular: quem não tem competência não se estabelece...

Voltando ao mote, reafirmo a omissão do geógrafo por formatura Paulo Aguiar que definitivamente resultou, como foi dito, em "um olhar estrábico sobre o conjunto", mesmo com os pressurosos panos quentes do erudito municipal, que ainda assim não conseguirá explicar a inexplicável omissão do município de POTIRAGUÁ, falha que derramou o "olhar estrábico nos meandros da História" - eis o xeque-mate!

Em que pese o possível desconforto causado pela forma incisiva do estilo "fernandiano", nesse embate de idéias entre pesquisadores da História de Canavieiras, separado o joio do trigo, não haverá vencidos nem vencedores. Desse bom combate, a grande vitória pertence à autêntica e cuidadosa pesquisa. Neste exato momento, afirmamos com a mais absoluta certeza de que em nenhuma outra cidade, mesmo de maior porte e maiores recursos, ocorra que um jornal esteja heroicamente disponibilizando espaços para estudiosos abordarem dados e fatos pertinentes à história local.

Entretanto, é na vetusta Canavieiras, que já viveu épocas de fastígio e que hoje possui como sua última riqueza apenas os séculos de história, que responsáveis por este patrimônio procuram manter viva aquela que foi a Princesa do Sul. Quanto à mencionada relação de governantes do município de Canavieiras, em que acrescentamos o período do Coronel Wulter Pereira de Castro, retornamos agora incluindo o engenheiro Pedro Antonio de Souza, que assumiu o cargo de Intendente para o qual foi eleito em 11 de novembro de 1923. Esse e outros originais nos foram gentilmente cedidos pela Sra. Arlete Fernandes, que pertencendo a uma das mais antigas e tradicionais famílias de Canavieiras, preservou documentos que nos permitem abrir agora uma ampla janela sobre o tema. Focalizando a relação de governantes do nosso município entre 1890 e 1990, observamos que nesse período de 100 anos houveram rupturas, transições, adaptações, abjurações, cooptações, enfim, tropeços e acomodamentos que ocorreram na vida política municipal.

Convém citar que em 1832 houve a emancipação de Canavieiras da Vila de Ilhéus e que no dia 17 de fevereiro de 1890, já proclamada a República, foi dissolvida a Câmara local, dando lugar a uma Intendência. Surgiu a partir daí a figura do Chefe do Executivo, que veio perdurar com a denominação de Intendente até que a Revolução de 1930 atribuiu ao ocupante do cargo a denominação de Prefeito. Foi na aludida sessão de 17 de fevereiro de 1890, sob a presidência do coronel Augusto Luiz de Carvalho, que foi lido ofício do dia 1º corrente em que o governador Virgilio Damásio oficializava a dissolução da Câmara e, ao mesmo tempo, nomeava Intendente o doutor Antônio Salustiano Viana.

A referida sessão, realizada fora do horário regimental, teve como participantes, além do citado coronel Augusto Luiz de Carvalho, o vice-presidente Nicolau Pinheiro de Souza e os vereadores advogado Onésimo Ferreira de Araújo, capitão Antonio Francisco de Souza e Rogério Camilo Catulandeira. Ao mesmo tempo, o governador nomeava para constituir o novo Conselho Candidiano das Neves, capitão José Alves da Cruz Rios, George Adolfo Stolze e Manuel Felix de Brito Cunha.

Foram eles então admitidos ao recinto com as solenidades de estilo, prestando juramento e sendo empossados perante a recém dissolvida Câmara de Vereadores. Isto posto, o coronel Augusto Luiz de Carvalho convida o doutor Antonio Salustiano Vianna a ocupar a cadeira da Presidência, colocando-se à sua direita. Decorridos pouco tempo destas providências iniciais, movimentos da política local acrescentavam novos membros ao Conselho, reincorporando ao novo poder constituído o coronel Augusto Luiz de Carvalho, antigo presidente da Câmara, que adiante sucederia ao doutor Salustiano Viana em uma alternância de compadrio no governo municipal.

Estamos agora em 1904, quando Canavieiras possui apenas 3 seções eleitorais, assim distribuídas: a 1ª sessão no salão Leste do pavimento térreo da Intendência, a 2ª sessão no salão Oeste do mesmo pavimento e a 3ª sessão eleitoral da cidade - pasmem os senhores!!! - funcionava numa casa de residência, exatamente a do advogado e articulista Antônio Sabino (hoje escritório da Ceplac). Por mera curiosidade, perguntaremos: - Seria possível algum eleitor que não fosse da simpatia do dono da casa exercer, nos idos de 1904, o seu legítimo direito de voto???

Nesta conjuntura eleitoral em que o voto era facultado somente aos homens, maiores de 21 anos, o eleitor exercia este fictício "direito obrigatório" a descoberta, com as próprias mesas receptoras de voto realizando a totalização, quase sempre sob fingida lisura e verdadeira mistificação. Ocorria aí quase sempre que, nas eleições municipais, as facções envolvidas apresentassem resultados diferentes em todos os níveis e, não raro, uma cisão na dicotomia ensejasse o inusitado da triplicata eleitoral. Estamos já agora em fevereiro de 1912, quando o engenheiro João Marques de Souza declara em relatório que exerceu as funções de Intendente de 9 de novembro de 1909 até 10 de dezembro do mesmo ano, em virtude de problemas de saúde do titular, coronel Augusto Luiz de Carvalho.

O engenheiro João Marques reassumiu o cargo, uma vez que era o presidente do Conselho Municipal, a 21 de fevereiro de 1910 até 21 de julho e, três meses depois, com o agravamento das enfermidades do Intendente, permaneceu em definitivo no cargo, completando o quadriênio, até as eleições de 12 de novembro de 1911. Entretanto, o Governo do Estado, pelo Decreto nº 990, de 26 de dezembro de 1911, veio a prorrogar os mandatos do Intendente e do Conselho, em virtude da triplicata eleitoral aqui ocorrida. Encontramos que, nos 100 anos anteriormente referidos - 1890 a 1990 - mais de dez dirigentes municipais ocuparam o poder local, por maior ou menor período, sem que passassem pelo crivo do voto popular. O povo, o cidadão de Canavieiras na sua individualidade, sempre foi vítima do processo eleitoral, como demonstrado.

Através do tempo, a fraude eleitoral, plasmada no espírito da terra, forjou eleições anulados, votações suplementares, apurações de votos em que campeava o mapismo, produzindo escandalosas vantagens eleitoral nunca repetidas, relator de junta apuradora que inexplicavelmente pronunciou-se contra o restabelecimento da verdade eleitoral. Podemos então afirmar que, somente com o advento da urna eletrônica, passou a ser respeitado o inalienável direito de escolha através do voto secreto, havendo então a ruptura definitiva com a fraude, o que pode se considerar o xeque-mate da Democracia. Com tais subsídios, torna-se imperativo, portanto, a republicação da relação de governantes de Canavieiras citada na página 2 da edição 265 de TABU.

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Fernando Reis é garimpeiro de diamantes
e pesquisador da história da Região
 
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