| Enquanto
relia a "Palmeira Florescente", de Arnou Sena
Lobo, dias desses, lembrei-me de que há uns cinco
anos me propusera a rabiscar alguma coisa acerca de nomes
antigos e atuais de algumas localidades do sul baiano.
O estudo dos nomes de lugares e pontos geográficos
é denominado toponímia (de "topos",
lugar e "onoma", nome, ambos da língua
grega). Os topônimos são cheios de riqueza
à nossa cultura, quer pelos aspectos lingüísticos,
históricos e sociais, ou simplesmente pelas suas
informações e curiosidades que contêm.
E podem, de quebra, brindar-nos com indicações
seguras de nossas origens, em auxílio à
identificação de nós mesmos. Assim,
tenta-se aqui o registro de uma parte dos nomes antigos
e dos respectivos atuais de cidades e povoados, estes
bem do conhecimento de quem vive e circula pelas regiões
cacaueira e circunvizinhas, até o extremo sul do
estado da Bahia.
Nem
todo idoso se lembra e os mais novos dificilmente saberão
que, em um passado nem tão remoto assim, essas
paragens recebiam outros nomes.
De início, olhamos o topônimo Buerarema (do
tupi Buera ou Puera = que foi + rema, de cheiro forte
e ruim; mais provável é que tenha origem
em Ibyra = madeira + rema = árvore de cheiro forte,
o pau d'alho, comum na região). A cidade, antes
do nome atual, era chamada de Macuco. Este é ave
galinácea ainda existente na Mata Atlântica,
tendo sido comum nas matas que cobriam os cacauais das
margens do médio Rio Pardo e, mais ainda, nas brenhas
fechadas de toda a região. Em seu Dicionário
Tupi-Português, Luiz Carlos Tibiriçá
informa que indígenas a chamavam de macucaguá
e macuco, também chamada de acauã, em outras
regiões do país.
A
Eunápolis de hoje (homenagem a algum Eunápio?)
era até os fins dos anos 70, por muitos, chamada
de Sessenta e Quatro, numa referência à distância
entre a sede do município de Porto Seguro e seu
maior distrito: 64 quilômetros. Eunápolis
- até o dia de sua justa emancipação
- era proclamada como o Maior Distrito do Mundo, com algo
próximo de 90.000 habitantes, à época,
dizem.
Até hoje o distrito de Leoventura é chamado
de Os Quatro por boa parte dos moradores de Camacã
e do próprio lugar, por adoção do
mesmo critério da distância com a sede do
município. A Itabuna - pedra preta, em tupi, numa
referência provável aos lajedos do Rio Cachoeira
- de hoje já foi Tabocas. A Pau-Brasil de nossos
dias foi durante décadas (e ainda é, por
alguns mais idosos ou saudosistas) tratada por Santa Rosa.
Na mesma sub-região, o lugar oficialmente denominado
Itaimbé ainda é chamado de Coréia,
por parte mais vivida dos que ali moram.
E
há topônimos que se marcam pela dose de curiosidade
havida em sua composição. É o caso
da vizinha Santa Luzia, que era chamada de Arriba-Saia.
Ouvi de algumas pessoas que residiram na região,
por ali passando à época: antes dos calçamentos
e asfaltos, a lama causada pelas chuvas obrigava as senhoras
e senhoritas a erguerem suas compridas vestes, da época,
em suas locomoções pelo então arruado;
daí o nome. Euclides Neto, no seu Dicionareco das
Roças de Cacau e Arredores (Ilhéus: Editus,
1997) confirma essa versão.
Diz ainda que Jitaúna era chamada de Mija-Gás.
Quando morei em Camacã, em 1974, lembro-me de que
Tripa-Seca nome dado ao distrito hoje denominado São
João do Paraíso (município de Mascote),
em face da dificuldade de acesso à água
que o lugar sofreu, antes de seu razoável desenvolvimento.
Perto dali, encravada na sinuosa e bem conservada estrada
de asfalto que liga a sede do município (Mascote)
à BR 101, há outro distrito: Pimenta. Desde
que por lá passei, pela primeira vez, em julho
do mesmo ano, Pimenta é Pimenta. Num imaginário
clássico do futebol municipal, à época,
um narrador diria: "Entra Pimenta na Tripa-Seca...",
lembro-me de que brincavam alguns dizendo isso, nos anos
setenta.
Eu
desconhecia e é bem possível que nem todo
o mais antigo se lembre de que Pedra Branca já
foi o nome de Itapebi. Que a Uruçuca de hoje era
a Água Preta do Mocambo de ontem, terra natal do
escritor Jorge Medauar. No prazeroso livro Visgo da Terra
(Editora Record, 1983), o saudoso poeta e intelectual
ambienta os casos em sua Água Preta, fazendo-o
com sentido apego. A Terra do Gado, Itapetinga, até
o ano de 1944, era Itatinga (pedra branca). No citado
ano, não podendo os municípios ter nomes
iguais dentro de um mesmo Estado, por determinação
do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística),
um Decreto-Lei estadual alterou-lhe o nome para o atual,
com acréscimo da sílaba "pe";
Euclides Neto nos lembra que Itapetinga também
esteve pejorativamente chamada de Ita-Fome. E Guaratinga
(garça branca, em tupi), igualmente recebeu, antes,
os nomes de Jaquetou e Novo Horizonte. Há tempos,
o curioso apelido de Volta Goma também lhe foi
posto, porque quase todas as especiarias, mais ainda a
goma, que chegavam ali para comércio, não
encontravam procura e voltavam intactas aos produtores.
A
situação geográfica da cidade também
foi tomada para a escolha de seu nome. No último
janeiro, voltando de Canavieiras a São Paulo, vi
as luzes da vívida Itamaraju, da rodovia federal
que serpenteia por ali e cruza, por ponte, o Rio Jucuruçu.
Há muito tempo, seu núcleo urbano, embrião
do atual, situava-se em lugar pouco visível de
longe e com acesso bem trabalhoso. Escondido era como
se chamava, até no início dos anos 60, quando
se emancipou com o nome atual. É belíssima
a formação rochosa que há ali, no
lado oposto ao núcleo urbano, lembrando o sinal
de ''positivo" e/ou um "dedo de Deus".
Não fosse Itamaraju, a cidade bem poderia se chamar
Itaboraí (pedra bonita).
A
maior parte dos lugares aqui citados denuncia a contribuição
do idioma tupi à formação de tais
topônimos. Tal pode ser atribuído à
preservação de seus nomes originais ou como
os indígenas, primeiros habitantes locais, chamaram-nos.
Além dos mencionados, são dessa origem,
na região e nas vizinhas: Juçari, Ipiaú,
Itarantim, Una, Jacarandá, Itagimirim, Itanhém,
Itacaré, Anuri, Itapé, Mucuri, Itabela,
Guaratinga (garça branca), Jacareci, Potiraguá
(flor redonda), Camamu, Ibirapitanga (cipó ou madeira
vermelhos), Itapitanga (pedra vermelha), Coaraci, Itororó
(cachoeira pequena), Arataca, Caatiba, Maraú, Guanambi,
Ibicuí, Oiticica, Macarani, Ubatã, Ubaitaba,
entre outros. Também os cursos d'água: Jequitinhonha,
Pindorama, Cipó, Itagi Mirim, Patipe, Marobá,
Pindorama, Piabanha, entre outros.
Os
caminhos da linguagem nos permitem viagens de encanto
e desafio. A estrada da toponímia nos conduz à
história da nossa gente e seus lugares. Um nome
é uma via. |